Bordado subversivo - a história do Major A.T. Casdagli
Esses dias eu vi um bordado feito por um major britânico, A.T. Casdagli, quando ele tava preso em um campo de concentração na segunda guerra.

Fiquei curiosa pela história, fui procurar mais sobre o assunto, as coisas saíram de controle e acabei baixando e lendo o livro com o diário que ele manteve durante os 4 anos anos em que ficou preso.
Ele começou a servir o exército no início da guerra, em 1939, que foi quando ele se despediu da esposa e do filho (Joyce e Tony) e foi pro Egito. Foi nessa época também que ele começou a bordar, esse ponto cruz foi o primeiro de todos:
ele também jogava squash
Eventualmente ele foi transferido pra Grécia e foi lá, em 1941, que ele foi capturado pelos alemães.
Depois de seis meses no campo de concentração (no primeiro deles) ele teve acesso a tela e agulha e começou a usar fios e linhas de roupas velhas de seus companheiros para bordar. Foram muitos bordados, alguns bem ousados, todos bem subversivos e eu fiz um grande compilado com as informações que encontrei no livro - que, alias, dá pra baixar aqui.
Já vou avisando que isso aqui ficou meio longo e também que nem todas as imagens estão com a melhor qualidade do mundo, mas eu fiz o meu melhor.
mensagem secreta
Esse foi o primeiro que eu vi, que foi o que me levou a buscar mais. Pelo que entendi, foi o primeiro que ele fez quando já estava preso. O símbolo que representa a Alemanha eu borrei e vocês sabem qual é, o leão representa a Inglaterra, a foice e o martelo a URSS e a águia representa a Itália.
O mágico desse bordado é que os risquinhos aparentemente aleatórios nas bordas na verdade são os dizeres FUCK HITLER e GOD SAVE THE KING repetidos várias vezes em código morse, e ainda ficou exposto em várias prisões nazistas sem que o alemães jamais soubessem das mensagens escondidas. Não é incrível? A audácia!
baseado no poema "The Ballad of Reading Gaol", do Oscar Wilde
No caso, ele trocou a palavra "laws" do original por "wars":
"I know not whether wars be right,
Or whether wars be wrong;
All that we know who lie in gaol
Is that the wall is strong;
And that each day is like a year,
A year whose days are long.

Esse é um outro trecho do mesmo poema:
"I never saw a man who looked
With such a wistful eye
Upon that little tent of blue
Which prisoners call the sky,
And at every drifting cloud that went
With sails of silver by."
mapa de Creta, onde ele foi capturado
Segundo o diário, esse bordado tem cerca de 45 mil pontos (!!!), demorou mais de 190 horas (!!!) para ser concluído e foi feito com fios do pijama do General Kaffato, um general grego que também foi capturado em Creta. Como Casdagli falava muito bem grego (além de ter vivido na Grécia, ele tinha descendência grega), ele chegou a ensinar inglês para os gregos e gregos para os ingleses, dentro do campo.
Os dois trabalharam juntos como tradutores e por isso dividiram um quarto por um tempo, só os dois. Eles passaram 14 meses juntos no total, e desenvolveram uma amizade fortíssima. Mesmo depois que foram separados (o general foi transferido) ele continuou sendo muito mencionado no diário. É bem bonito.
room 13
Esse é um mapa do quarto que ele dividia com outros prisioneiros, baseado no desenho de um deles, marcando seus beliches e lugares na mesa. Como era proibido exibir bandeiras nacionais, quando o bordado foi pendurado na parede a bandeira da Inglaterra foi coberta por um pedaço de papelão escrito "não puxe" em alemão.
Quando os alemães entravam no quarto, puxavam o papelão e falavam que era proibido, o Major respondia "você que está mostrando, não eu". Provando que humor também pode ser subversivo. Ou como ele colocou em um outro momento no diário "(o senso de humor) certamente nos ajuda e simplesmente enfurece os alemães."
any day now
Esse ele fez para a esposa Joyce, com as iniciais dela e os anos que eles estavam sem se ver.
marcador de página
Mais um ousado com seu nome, número de prisioneiro, as cores de uma escola que frequentou e um Fuck Hitler em código morse de novo.
letter to Tony
Esse lindíssimo é uma carta pro filho dele. Imagina, bordar uma carta? Não só o bordado e não só a carta, mas o próprio conceito de bordar uma carta eu achei bem maravilhoso.
castelo Spangenberg
Esse é um castelo na Alemanha que abrigava o campo de concentração que ele passou mais tempo.
magic square
Cada lado do quadrado tem o número de um campo de concentração que ele esteve e, pelo que eu entendi, foi o último que ele fez quando ainda tava preso, meses antes do final da guerra.
Em abril de 1945 foi quando ele finalmente voltou a ser um homem livre. Quando conseguiu voltar pra casa, se deparou com uma situação diferente do que imaginava, então ele e sua esposa se divorciaram e ele pediu transferência de volta pra Grécia. Lá ele conseguiu reencontrar o General Kaffato duas vezes, conheceu sua segunda esposa e teve uma filha, Alexis, que é quem escreve a introdução e o epílogo do livro.
Na década de 50 ele voltou a bordar diariamente por pelo menos 3 horas, até completar 87 anos.
while there is life there is happiness
Em 1984 ele fez esse bordado com a citação do livro Guerra e Paz do Tolstói, que ele leu quando ainda tava preso. Ele inscreveu o bordado num concurso e ficou em segundo lugar no prêmio de bordadeiro do ano (na verdade, de bordadeira rs, o nome era "neddlewoman of the year"). Ele morreu aos 90 anos, em 1996.
Nessa entrevista de 2011, o filho dele Tony (também bordadeiro, aliás), conta que o pai costumava dizer que a cruz vermelha salvou sua vida, mas que o bordado salvou sua sanidade.
De fato, em vários momentos do diário o Major menciona atividades - não só o bordado - que ajudavam ele e os colegas a manter a sanidade, como apresentações musicais (acho engraçado que uma delas ele descreve como "pouco talento, mas bem divertida"), teatrais, desenho, e o próprio ato de escrever o diário.
Fica aí de lição praqueles que acham que arte é inútil.
Um vídeo sobre essa e outras histórias subversivas, sendo uma sobre macarrão. muito bom.
E se ver brinquedos dando um baile num soldado nazista é algo que interessa, vou deixar aqui o link pra uma animação tcheca de 1946 que é excelente.